Papeando com Gustavo Piqueira

Nosso convidado do Papeando de hoje usa qualquer espacinho em branco que encontra para criar. Das mãos dele saíram as ilustrações de vários livros da Editora Biruta, como Babuxa e O trem maluco, ambos de Almir Correia. Além disso, a Casa Rex, sua casa de design, é responsável por diversos projetos gráficos dos livros da Biruta.

Sabe de quem estamos falando? De Gustavo Piqueira, que também escreveu A vida sem graça de Charllynho Peruca (Editora Biruta). Veja agora no que deu a nossa conversa!
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Quem é Gustavo Piqueira?

Alguém que acha a vida muito curta e, por isso, não gosta de desperdiçar um minuto sequer.

O melhor lugar para o surgimento de riscos e rabiscos é…?

Qualquer um, eles surgem primeiro na minha cabeça. Depois é só ter algo à mão para materializá-los. Vale computador ou caderno. Mas vale também celular, guardanapo, comprovante de pagamento…

O melhor amigo criado por você?

Seria injusto escolher um só. São todos ótimos amigos — cheios de qualidade e defeitos bem particulares, como qualquer bom amigo.

Uma viagem inesquecível seria nas páginas de qual livro?

É difícil listar aqueles que marcaram outras épocas de minha vida, e certamente foram muitos — incluindo as toneladas de quadrinhos que preencheram minha adolescência. Hoje, considero Em busca do tempo perdido a coisa mais linda que já foi feita — não apenas no campo da literatura. Gosto bastante também dos Ensaios de Montaigne, dos muitos contos e poucas novelas/peças do Tchékhov, Doutor Fausto de Thoman Mann, Pai Goriot/Ilusões Perdidas do Balzac. Obras muito diferentes entre si, mas que lançam olhares bastante profundos e originais sobre a experiência individual humana. Curiosamente, existem alguns livros que adoro, como Os Maias ou Memórias póstumas de Brás Cubas, ambos afiados e divertidíssimos, mas que não me interessaram nem um pouco quando os conheci pela primeira vez, na época de escola. Isso, para mim, mostra o quanto é impossível dissociarmos o valor de um livro (ou de qualquer outra coisa) de nós mesmos.

Qual é seu companheiro favorito de aventuras?

Semana passada eu estava contando um projeto novo para um amigo, dizendo a ele que, finalmente, havia conseguido visualizá-lo com 100% de clareza e me via pronto para começar. Ao final de minha exposição, esse amigo me perguntou: “jura que isso é o que você chama de algo 100% claro? Porque eu não entendi nada.” Acontece que, para mim, a execução de um projeto é, na verdade, uma mera desculpa para sair à caça de novas descobertas. É aonde está toda a graça: não saber onde aquilo vai terminar, nem quais as paisagens que surgirão pelo caminho. Por isso, sem dúvida, meu grande companheiro de aventuras é o projeto que eu estiver realizando naquele determinado momento.

Escrever/ilustrar um livro é…

Poder ser quem realmente sou.

Se não inventasse mundos e personagens, o que Gustavo faria?

Não sei. Mas tenho absoluta certeza de que, seja lá o que fosse, seria infeliz. Fico profundamente entediado quando não estou envolvido em algum projeto, seja ele de literatura, ilustração ou design gráfico.

Por que literatura para os pequeninos/jovens?

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Por liberdade extrema. Liberdade de nosso próprio raciocínio limitado, de nossa própria visão das coisas. Escrever para os mais jovens ajuda a remover as camadas e mais camadas de preconceitos e condutas sociais que adquirimos à medida em que “amadurecemos”. Eu nunca conseguiria, por exemplo, encarar a Odisseia de Homero de modo tão informal e íntimo quanto o fiz em meu novo livro, que sairá pela Gaivota em breve, Odisseia de Homero (segundo João Vitor). Ao colocar Ulisses na mão de João Vítor, um garoto bastante trambiqueiro e um tanto idiota, driblei toda a seriedade e o “comportamento adequado” com os quais um adulto como eu deveria abordar o livro, sem ‘infantilizá-lo’. Talvez eu tenha exagerado um pouco ao retratar Ulisses como um garanhão baladeiro de cabelo poodle — mas, como quem fez isso foi o João Vítor e não eu, tudo bem… (E só isso já dá uma boa ideia de quão libertadora foi a experiência.)

Onde fica/o que você faz quando busca inspiração?

Começo a escrever/desenhar. Acredito no próprio processo de confecção de um livro (ou de qualquer outra coisa) como minha maior fonte de inspiração. Gosto de deixar o caminho aberto. Pontuo algumas “paradas obrigatórias” e, tendo-as mente, rasgo o mapa, desligo o GPS e saio por aí. Nada na vida me dá mais prazer.

A melhor tela/página em branco é…

A vida da gente.

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