Papeando com Maurício Negro

Mauricio Negro nasceu em São Paulo, no ano de 1968. É ilustrador, designer gráfico e escritor. Se formou em Comunicação Social pela ESPM, mas também estudou Arquitetura e Urbanismo. Tem mais de cem livros ilustrados e participa de exposições e catálogos pelo Brasil, Argentina, Alemanha, China, Eslováquia, México, Itália, Coreia e Japão. Já foi selecionado no CJ Picture Book Festival (Coreia, 2009), recebeu o NOMA Encouragement Prize (Japão, 2008) e menção especial White Ravens (Alemanha, 2000), além do selo Altamente recomendável pela FNLIJ. É membro do conselho gestor da SIB (Sociedade dos Ilustradores do Brasil).

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As ilustrações do livro A Tatuagem, publicado pela Editora Gaivota, foram inspiradas pela paisagem, cultura e estética tradicional da etnia luo, e resultam da mistura entre monotipia, tingimento natural e acabamento digital. As ilustrações deste livro receberam o The Merit Award na Hiii Illustration International Competition, promovido pela Hiiibrand.

Vamos conhecer um pouco mais desse ilustrador?

 

                                                                                                                                                                       

                                                                                                                                                                    

Quem é Mauricio Negro?

Vou pela etimologia. Mourisco de Al-Andaluz. Raízes da minha avó Nair Hortal, de passado noroeste africano (daí meu gosto por horta e pomar). Negro veio pelo nonno, como pode? Lá da bota, teve nosso ancestral essa cor? Foi mercador em Veneza? Ou cristão novo? Genealogia à parte, só sei da mistura. Avô caipira também tive . E foi Silva minha outra avó, como zilhões de brasileiros. E teve índio na família. E teve bandeirante também. E teve até frei, o Galvão. Quarenta anos de estrada… Mesmo me conhecendo como me conheço, de vez em quando, me pego de surpresa. Livro aberto ninguém é. Mas tá lá na biografia. Diz que sou ilustrador, designer e escritor. Acho que isso tem mesmo um fundo de verdade.

O melhor lugar para o surgimento de riscos e rabiscos é…?

Qualquer um que não seja o meu ateliê. Antes, pensava o inverso. Queria segurança, conforto, praticidade, o ferramental à mão. Hoje gosto do acaso, do acidente, da reinvenção. Os rabiscos não são desenhos. São anotações. As ideias que surgem em viagens, passeios, sonhos, devaneios ou conversas fiadas que procuro rabiscar para guardar. Demorei até sacar que são as melhores. Já os riscos estão por toda parte. Mas quem petisca é porque arrisca.

O melhor amigo criado por você?

Bolei amigos cães, gatos, dragões, serpentes, gentes e até um tamanduá chamado Jóty. Mas ele não é invenção minha, não. Foi esse animal que ensinou o povo guerreiro Kaingáng a dançar e cantar. Tive a oportunidade de recontar essa história nativa tradicional, em parceria de texto e ilustrações, com a arte-educadora indígena Vãngri Kaingáng. E Jóty foi tão amigo nosso que foi lançado no Brasil, traduzido na França e premiado no México.

Uma viagem inesquecível seria nas páginas de qual livro?

Livro bom é um cruzeiro. Embarque clandestino pode ser um enorme prazer. Leitura feita num sereno navegar sem rumo. É como achar uma pérola, pela qual você não está à procura, em alguma concha improvável.  Sem premeditar, leitura que faz meditar. Já aconteceu comigo algumas vezes. Por exemplo, Todos os fogos o fogo, do Julio Cortázar. Que li estendido na rede com a minha mulher, durante as férias na praia. O Amante, de Margherite Duras (sugestão dela), O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde (que levei de troco no sebo quando adolescente), entre outros de chapar.

Qual é seu companheiro favorito de aventuras?

Um bom livro faz esse papel (sic). Quando viajo, a passeio ou a trabalho, levo sempre um livro na bagagem. Até em fila tiro uma casquinha.

Ilustrar um livro é…

…fazer música.

Se não inventasse mundos e personagens, o que Mauricio faria?

Cuidaria do meio-ambiente, das tradições populares, do patrimônio histórico e cultural brasileiro, das culturas circulares nativas. Seria talvez jogador de futebol (meu pai foi boleiro dos bons).

Por que livros para os pequeninos e jovens?

Quando nos dirigimos a pessoas diferentes numa conversa escolhemos os termos e as palavras. Mas não é somente a idade que conta. Somos diferentes pela sensibilidade, pelo repertório, por muitas circunstâncias e particularidades. Livros são para todos. Se há empatia com o público infantil é preciso comemorar. Porque quanto mais jovem o leitor, mais abertura, disponibilidade, sensibilidade e também franqueza podemos esperar. Já o leitor adulto usa suas convenções como arrimos ou escudos. Os temas essenciais da filosofia universal, não à toa, são abordados pelos escritores e ilustradores que se dedicam aos livros supostamente feitos para crianças. As maiores ousadias e experiências com textos, imagens e design acontecem nessas obras também.

Onde fica/o que faz Mauricio quando busca inspiração?

Inspiração funciona no contrafluxo. Feito musculação. O sujeito transpira de dia. Mas o músculo cresce mesmo é durante o repouso. Busco sempre outras fontes e referências sobre o tema do livro. Leio e releio o texto original. Faço anotações e rascunhos de ideias que me ocorrem. E depois dou um tempo. Deixo maturar. Só quando a inspiração vem, boto uma música para compor o clima, e sigo adiante. Em geral já finalizo enquanto crio, sem croquis prévios. Isso me dá margem aos imprevistos, que podem ser saborosos desafios.

A melhor tela em branco é…

 … aquela que preencho, com alívio.

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